sábado, 6 de junho de 2009





Logo Que Nasci


Logo que nasci

Foi-me dada ordem

De me procurar.

Logo assim e aqui

Não vou ter descanso

Em nenhum lugar.


Natércia Freire (1920-2004)

Passo Secreta Tormenta





Passo Secreta Tormenta


Passo secreta tormenta

que só comigo se sente,

mas o que mais m'atormenta

é mostrar-me descontente

de quem muito me contenta.

Dessimulo que não vejo

quem folgo muito de ver;

é um mal muito sobejo

mostrar contrairo desejo

do que desejo fazer.

Assi que, passo tormenta

de nunca viver contente,

mas o que mais m'atormenta

é mostrar-me descontente

de quem mais me contenta.


Diogo Brandão (séc. XV - XV ou XVI ?)



Prece


Senhor, deito-me na cama

Coberto de sofrimento;

E a todo o comprimento

Sou sete palmos de lama:

Sete palmos de excremento

Da terra-mãe que me chama.

Senhor, ergo-me do fim

Desta minha condição:

Onde era sim, digo não,

Onde era não, digo sim;

Mas não calo a voz do chão

Que grita dentro de mim.

Senhor, acaba comigo

Antes do dia marcado;

Um golpe bem acertado,

O tiro dum inimigo...

Qualquer pretexto tirado

Dos sarcasmos que te digo.

Miguel Torga (1907-1995)




Do Teu Silêncio


o teu silêncio

é como uma esplanada

cheia de presenças vazias

um caderno rasgado

por escrever

abandonado na mesa.

o teu silêncio

é como uma varanda

onde o sol já não chega,

um esboço de canção

por dizer

esquecida no papel.

o teu silêncio

é como uma ausência

longamente adiada

uma tristeza sem cor

por esquecer

atravessada no passeio


Paula Sousa-Nunes (1959)



Conquista


Oiço uma palavra...

Um passo....

- Meu?

Será!

Tão meu?

Tão meu?

- Só é meu o que não faço.


Pedro Homem de Mello (1904-1984)




Estação


Esperar ou vir esperar querer ou vir querer-te

vou perdendo a noção desta subtileza

Aqui chegado até eu venho ver se apareço

e o fato com que virei preocupa-me, pois chove miudinho


Muita vez vim esperar-te e não houve chegada

De outras, esperei-me eu e não apareci

embora bem procurado entre os mais que passavam.

Se algum de nós vier hoje é já bastante

como comboio e como subtileza

Que dê o nome e espere. Talvez apareça


Poema: Mário Cesariny (1923-2006)

Praia


Brincávamos na areia. Os nossos passos

eram naqueles dias a cadência

a música do sol

Ó estilhaços do tempo ainda vivos

projectados num filme que regressa

ao ritmo das ondas

e fica ao nosso alcance, até ao fim

da tarde pouco a pouco devorada

pla sombra desses toldos

dunas esquivas e pinhais

tão perto do que foi a minha infância

entre o riso dos primos e o mar

amigo de Brandão de António Nobre

batido pla nortada

Brincávamos na areia. como eu queria

roubar de novo a luz a essas praias

jogar ao prego, adivinhar

nas vozes infantis algum presságio

do céu ou do inferno - uma certeza

para sempre fiel a esse mundo


Poema: Fernando Pinto do Amaral